CAUSA DA NOSSA ALEGRIA

Há quase cem anos, num gesto singular e sempre inefável, Deus, mais uma vez, quis acordar a Humanidade. Não escolheu um país poderoso, grande e rico: escolheu Portugal, escolheu Fátima; não procurou personagens conhecidas e influentes: procurou três crianças, pobres e simples; não enviou Anjos nem Arcanjos: enviou uma Mulher. A mesma Mulher que, ainda jovem donzela, foi visitada por Gabriel (cf Lc 1, 26ss). Convidada para ser Mãe de Deus, compreendido o fundamental, respondeu: “Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Há dois mil anos. Há cem anos. Hoje.


Fátima, Nossa Senhora do Rosário de Fátima, desde então, pela riqueza da Mensagem unida à simplicidade da sua representação, correram mundo e entraram no coração da Igreja, mormente dos mais pequeninos. O fascínio da Imagem que compendia este gesto de Deus encontra explicação na força atrativa de todas as representações maternas. Mas aqui é, certamente, potenciada pela impressionante simplicidade das personagens: a Mãe e as crianças.


E a Mãe é Mãe de Deus, em Jesus Cristo, e nossa Mãe por vontade do Filho (Jo 19, 26-27). Maria está indissociavelmente unida ao plano salvífico de Deus: por vontade de Deus, pela Sua fidelidade, pela condição de Mãe do Redentor, Jesus Cristo. “Pelo dom e missão da maternidade divina, que a une a seu Filho Redentor, e pelas suas singulares graças e funções, está também a Virgem intimamente ligada, à Igreja: a Mãe de Deus é o tipo e a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo” (LG 63).


Podemos dizer que a correspondência à presença da Virgem Maria na Igreja e nas nossas vidas, por vontade de Deus, é mais que mera devoção. Criatura de Deus, a primeira e a mais fiel dos discípulos, sinaliza caminhos de busca e de encontro com Jesus Cristo. Não é meta, nem é caminho: é companhia e vereda para o Caminho.


Quantas vezes a realidade ultrapassa os nossos limites e as explicações não explicam! Num diálogo, ao mesmo tempo fraterno e filial, podemos encontrar em Maria o conforto da força dos afetos.


Sem malabarismos intelectuais, a presença luminosa da Imagem Peregrina da Senhora de Fátima entre nós pode adentrar-nos no mundo divino e humano da misericórdia. “O pensamento, diz-nos o Papa Francisco (MV 24), volta-se agora para a Mãe da Misericórdia. A doçura do seu olhar nos acompanhe neste Ano Santo, para podermos todos nós redescobrir a alegria da ternura de Deus. Ninguém, como Maria, conheceu a profundidade do mistério de Deus feito homem. Na sua vida, tudo foi plasmado pela presença da misericórdia feita carne. A Mãe do Crucificado Ressuscitado entrou no santuário da misericórdia divina, porque participou intimamente no mistério do seu amor”. Com Ela, descobriremos, mais acessível, o caminho do perdão e o sacramento da Reconciliação.


O itinerário da Imagem Peregrina (em anexo) contempla a sua presença na amplitude possível da geografia física e humana da Diocese. Serão situações diferentes, a serem tratadas, previsivelmente, de modos diferentes. As relações materno-filiais não têm códigos rígidos.


Nesta, como em todas as situações, cabe aos sacerdotes exercer a sua missão de pastores. E aí cabe sempre: educar, evangelizar, formar, acompanhar, aprender. A religiosidade popular não é um género menor das manifestações de vitalidade cristã. Como nos recorda o Papa Francisco (EG 123-125), “a piedade popular ‘traduz em si uma certa sede de Deus, que somente os pobres e os simples podem experimentar’ (…) Não coartemos nem pretendamos controlar esta força missionária!”.


E acrescenta: “Para compreender esta necessidade, é preciso abordá-la com o olhar do Bom Pastor, que não procura julgar mas amar. Só a partir da conaturalidade afetiva que dá o amor é que podemos apreciar a vida teologal presente na piedade dos povos cristãos, especialmente nos pobres. Penso na fé firme das mães ao pé da cama do filho doente, que se agarram a um terço ainda que não saibam elencar os artigos do Credo; ou na carga imensa de esperança contida numa vela que se acende, numa casa humilde, para pedir ajuda a Maria, ou nos olhares de profundo amor a Cristo crucificado. Quem ama o povo fiel de Deus, não pode ver estas ações unicamente como uma busca natural da divindade; são a manifestação duma vida teologal animada pela ação do Espírito Santo, que foi derramado em nossos corações (cf. Rom 5, 5)”.


Maria, Mãe de Misericórdia, não nos distrai dos acentos pastorais que temos à nossa frente. Melhor do que ninguém, nos ajudará a abrir os olhos e o coração à Boa Nova de Jesus Cristo. A descobrir que “a alegria do Evangelho” é mais que uma frase: é o segredo de uma vida com sentido e é, por isso, “a nossa missão”.


 


Porto, 4 de abril, solenidade da Anunciação do Senhor, de 2016


     António Francisco dos Santos, Bispo do Porto


       António Bessa Taipa, Bispo Auxiliar do Porto


   Pio Alves de Sousa, Bispo Auxiliar do Porto


António Augusto Azevedo, Bispo Auxiliar do Porto


 


 

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